Alice Abduzida
(Ilustração de Anna Zwiers) Através do noticiário da TV era impossível deixar de se assustar. Divulgava-se ali algo estarrecedor sobre um maníaco que assaltava e assassinava mulheres e moças de família. Alice estava atenta aos alardes eletrônicos a respeito deste maníaco que atacava nas redondezas de seu bairro. As notícias asseguravam que ele matava, e depois, estuprava. Evidente que ela não se sentia segura nem dentro de casa, muito menos em sair à passeio por aí.
- Até os ferrolhos das janelas eu confiro todas as noites para saber se as fechei direito... Me dá calafrios só de pensar neste crápula...
Na realidade, Alice se sentia a próxima vitima. Ouvindo às noticias, ela praticamente se via nuazinha, à disposição do facínora. Via-se deflorada e tendo seu corpo de morta ultrajado pelo bandido. Isto ela imaginava fielmente porque ouviu na TV que o serial killer era metódico. Inclusive, de acordo com uma fonte da polícia, os exames indicavam que ele até tornava a vestir as mulheres depois da violência sexual. Alice não quer mais sair na rua sozinha. Ela tem medo de tudo. O próprio carteiro lhe inspira veladas desconfianças. É um homem abrutalhado que olha fixamente para ela enquanto lhe entrega as correspondências. O outro que ela desconfia é um caixa do supermercado local. Este indivíduo, com aparência de um estivador das docas, olha para ela com avidez, diretamente para suas pernas, e depois para seus seios, num perscrutar que a deixava invadida. Este homem desequilibrado a mirava despudoradamente e somente depois se propunha, não sem resmungos, a lhe entregar o troco correspondente à compra do mês.
- Será que é ele? (Um trecho de conto do meu livro Caché Incluso)
Desenho de Michelângelo NO VATICANO
Raffaello em peito nu.
Depois a Praça de São Pedro, aos pombos, vazia.
Soluços sussurrados. A safada. Calcule o escândalo.
Sem traçar uma linha em latim. A senhorita maluquinha.
Para a necrópole de um dia apenas. Surgiu insaciável.
Vai Cérberus. Ao tempo o filme de prazer se escusa.
Ela esperava o pás de deux para irmos copular. À francesa.
Como cruzados convictos. Bandearam-se os atores,
A comer pizza mozzarella com champignon e azeite italiano.
Pode até ser lei na Antuérpia. Onde azulejam obras de Magritte.
Aqui, no entanto, la nave va em meio à santidades. Inclusive,
Possuíamos um ângulo, muito breve, do futuro transparente,
Ela preferia a roupa com amaciante, um piso bem encerado
E dos préstimos de uma tia que transatlanticou
Algo aconteceu meses atrás, com a tia imitando o Planeta Terra
Como se a Madama Rocambola também quisesse abdicar
Dos movimentos de rotação e translação.
Já imaginou se Madama Rocambola desiste de seu rebolado?
Deus desnuda-se na casa paroquial
Os lábios que sorveram a hóstia fremem numa oração
O perfume das orquídeas, sobre a cidade, adornam o Animal Planet
E, num afã, um tempo sem afrescos segue o andor
Num pequeno vapor que descobriu calvas nas serranias
E você tendo de posar para comerciais de enxovais de bebês?
Apenas uma implicação com o abismo das serras.
Pois precipício tipo lapa é da alma de cada um.
Beiramarávamos o sol nascente desde a Avenida Atlântica.
A Cinderela achou de fazer um boquete justo no túnel velho.
A idéia é um casamento consagrado nos dentes de uma pianista.
E o que se tocava, de passagem, muito lento, muito rápido
Era como um ninho de talheres farfalhando num gaveteiro
Chegamos afinal. E como meus vizinhos foram para a Espanha,
Fizemos amor no hall de entrada deles. Mas ninguém tirou a roupa.
Só mascamos chicletes e demos uma cochilada.
Depois fomos embora. Apalpar os fofos em outro lugar.
- Veja amor, todo coelho gordo é mal amado.
A coroa do sol já havia adormecido.
E para ela o sol continuou a brilhar em seu vôo noturno,
Dizer o que? Ela, nada, nuance, tudo. Sempre em exagero.
Eu desejava secretamente suas eternidades
Onde está a chave, amor? No sapatinho?
O príncipe, dono de seu coração, era outro e eu não sabia.
Mas sou de momentos concordantes na dita paz universal.
Incompatível com um rasto de luz lilás na pele sem juízo dela.
Sombras plagiam sombras. Logo Agnolo, Carruci e outros calabrêses
Pularam o muro. E nos mármores das catacumbas se viam sombras.
E ela pergunta, coca? Papelote? Quer um, amore?
Porção terreiros brasílicos no pó da praia, alhures. Tão linda,
Tão egípcia. Tinha algo de uma Gabriela dos livros santificados.
Claro que avó, bisavó e tataravó. Agora pobretãs e mendigas,
Súbito, despertaram para voltarem a ser ela mesma.
Ao longe silhuetas de guindastes negros ocupam-se das docas.
O luminoso do Motel Giovanni ainda piscava seus néons.
Duas pombas brancas se repetiam perfeitamente numa poça d’água.
O tesão é qualcosa di te que surge aristocrático aos que nunca trepam.
O incesto, a gaiola, o lamber e os retorcidos frontispícios do Vaticano.
Ela então me ofereceu o colo, com esmero, mas sem amor.
E o Rei continuou roendo Mondrians lá fora.
Com a realidade a esculpir cavalos sólidos.
E a púbis dela cresceu para aninhar aguardentes.
Navegantes náufragos da mansidão.
- Ragazzina, você não achou as minhas abotoaduras na Jacuzzi?
(Beto Palaio)