março 17, 2013



A NOVIDADE 

Vejo dois palhaços. Quem cortou a linha de acesso ao telefone do andar de cima foi um deles. Amanhã um oficial de justiça virá até minha casa. Não temo por ter de alugar um outro espaço para morar. Tudo é arte. Mesmo escrever algo com o pensamento na lotérica da esquina. O fato é este. Essa é que é minha verdade. Preciso urgentemente ganhar na loteria. As contas se acumularam de tal forma que não houve jeito de pagar o que quer que fosse.  Também estou sem carro. Mas com saúde boa. Ainda tenho vizinhos que me socorrem. Não há possibilidade de erro. Bato na casa ao lado por meio quilo de arroz. Bato na porta da frente por uma xícara de feijão. Até que bati na casa de uma nova vizinha. Logo de cara ela me impressionou. Nunca a vira antes nos arredores. E foi ela mesma quem atendeu à porta. Entretanto, nem sequer ouvira o que lhe pedi. Novitas se adiantou e, depois de dizer seu nome, me fez o convite para que entrasse. Ela era bastante jovial, apesar de apresentar discretas rugas que denunciavam a proximidade dos quarenta anos. Com incrível determinação, Novitas me convidou a sentar. “Quais são as novidades?”, me perguntou ela sem rodeios. Olhei para aquela criatura simpática e pensei em não responder. Tenho evitado ler os jornais, portanto não sei de muita coisa nova. Entretanto, a novidade era mesmo eu estar ali dentro daquela casa com uma mulher misteriosa, linda, interessante, sexy com certeza. Mas. Sou o que sou. E a isto é que me resumo. Não nego minhas tramóias. “A novidade é que meu emprego se foi, minha ex-mulher concordou com o divórcio, meu senhorio me pediu o apartamento e meus amigos me evitam declaradamente”. Novitas pareceu não me escutar: “E quais são as novidades?”, insistentemente repetiu ela, mas notei que desta vez ela colocou a letra “e” antes da pergunta propriamente dita. “Bom, as novidades são as mesmas”, repeti eu, sem vontade de falar o que já dissera antes. “Sim... Mas quais são as novidades?”, Novitas tornou a insistir, sendo que desta vez concordou com algo que eu falara antes, pois disse a palavra “sim” como determinante dessa concordância. “Olha... Não consigo fingir... A grande novidade é essa mesma”. Ela concordou, piscando afirmativamente os olhos, dizendo que entendera por fim qual seria a novidade. Depois ela sentou-se ao meu lado, no sofá fronteiriço ao dela. Sem pressa nenhuma. Novitas então me mostrou uma embalagem de papelão, quadrada e achatada, decorada com barbantes dourados, a qual me abriu de pronto e, com incontido orgulho, me repetiu: “gostei da sua novidade... Mas veja agora a minha novidade”. Novitas parecia emocionada ao destampar a caixa de papelão. Dentro dela havia uma única fotografia. Nela Novitas estava totalmente nua segurando um gato negro, um animal de pelagem luzidia, um tanto estranho, bastante esquisito, aliás. Eu prestei atenção ao pelo do gato e à destacada penugem negra que cobria a vagina de Novitas. Elas eram idênticas. Eu poderia jurar que tanto o gato quanto a vagina eram cobertos com o mesmo tipo de pelo. “Viu a novidade?”, disse-me Novitas um tanto apressada em saber minha opinião. “Vi a coincidência da penugem... Pelinhos... Os pentelhos... Se é que me entende”. Novitas fez notar que eu não enxergara a novidade, mas mostrou-se determinada para que eu mesmo a encontrasse. Ela retirou a foto da caixa de papelão e me entregou para que eu a analisasse com mais vagar. Aqui faço um preâmbulo. Eu tenho de dizer que a liberdade de escolha por vezes é quase insuportável para mim. Eu muitas vezes me pego pensando mais sobre a estrada não tomada do que aquela que escolhi. Como resultado, eu fico muito confuso com minhas opções. Eu tenho a tendência de ficar paralisado pela escolha tomada seja ela qual for, então acabo entrando em paranóia, curto-circuito. Fico neutralizado diante disso. Claro está que este fato determinante na formação da minha personalidade não permitiu que eu visse na foto algo mais do que já vira. Mas tentei descobrir qual era o jogo de Novitas. Olhei para a foto como Sherlock Holmes olharia para uma pegada fresca na trilha de um crime. Analisei o todo daquela mulher nua e vi que ela era deveras interessante. Parecia que ao apreciar atentamente aquela foto, havia um entranho convite em seu olhar. Algo de cumplicidade, conluio de entregas lascivas, uivos de alguém carente por um arroubo conquistador. Olhei atento para a fotografia, isto é crucial, e não achei novidade nenhuma, por isso voltei a falar da coincidência do púbis se parecer com a pelagem do gato que Novitas segurava na foto. “Acho que é isto mesmo”, disse devolvendo a foto para Novitas. Ela balançou a cabeça negativamente e recolocou a foto na caixa me olhando com censura, como se eu de fato fosse obrigado a adivinhar algo apenas observando uma determinada imagem fotográfica. Depois Novitas se levantou e disse que ela teria de insistir neste tema, assim iria me fazer a pergunta de modo mais incisivo. Foi desse modo que Novitas saiu da sala e demorou cerca de cinco minutos para retornar. Quando voltou ela estava lindamente nua e trazia ao colo um belo gato negro. Eis sua atuação performática. Agora Novitas desfilava diante de mim, na esteira de uma possível mudança na minha dramática existência. Algo que entendo como plausível, o fato do sexo haver fugido pela porta dos fundos de um homem traumatizado pelas dívidas, do ser inadequado para um emprego fixo quando, no extremo do presumível, haveria uma probabilidade de mudança inesperada em sua insípida vida sexual. A verdade é que tremi diante daquela linda mulher nua. Não tanto pela possibilidade de satisfação das minhas reivindicações imediatas. Mas aquilo era mesmo um belo regalo fora de hora. Por certo me senti um privilegiado diante dos jogos do destino. Verdadeiro é o chamado de consciência que me arrebatou, digo, inclusive com bastante facilidade. Pois outro fato inerente em mim, eu chamaria de "relógio biológico". O relógio biológico é uma entidade que reconheço existir, creio realmente que ele exista. Afirmo categoricamente que esse mecanismo rege apenas o palpitar dos corações masculinos, porque as mulheres nunca querem se adequar para permitir que um marcador de tempo paralelo se instale nelas de forma tão veemente. Mas o relógio biológico com certeza existe para os homens. É uma questão enlouquecedora para as mulheres que vigore a brevidade de seus invisíveis relógios em relação à longevidade dos relógios masculinos. Essa comparação me deu a oportunidade de experimentar um novo tipo de afeição que não surgira apenas com base nas atrações carnais. Na melhor das hipóteses um tempo complementar se abriu para mim. Isso me fez ficar confiante. Esse algo mais me excitava para adentrar as carnes de Novitas. “Sim... Gostei demais da novidade... Posso experimentar a novidade?”, perguntei para Novitas que já deixava fugir o gato e fez um gesto afirmativo com a cabeça. Foi assim que a novidade adentrou festivamente em minha vida.


Beto Palaio

março 15, 2013




OS CRIMES DE SIL N. N. LIS

Para muitos aquilo seria um pecado capital. Entretanto, Silene Enelis havia mordido sem piedade aquela finíssima pele elaborada com farinha de trigo. Logo ela descobriria. Não havia nada de errado em mastigar uma hóstia. Entretanto. De fato ela se sentiu uma bastarda. Embora uma bastarda um tanto justificável. Tinha de ser ela a executar aquele ato pusilânime aos olhos de qualquer seguidor da religião católica. Ela que tivera um passado conturbado sendo seguidora de seitas ditas trogloditas e espiritualistas na velha Londres. Nesta outra ocasião  um motorista de táxi um tanto míope olha para ela enquanto lhe entrega uma pesada mala de viagem nas dependências do aeroporto Santos Dumont: “incrível, madame, a senhora está carregando algum defunto nessa mala?”. Silene Enelis se incomodou com aquele comentário absurdo. Ela permanecera longe do Rio de Janeiro por quase toda década de cinqüenta, agora estava viajando novamente, sobremaneira protegida por xales de lã e uma pesada manta de inverno. Ainda assim, mesmo que aquele motorista nanico a confundisse com alguma criminosa, Silene Enelis tomou como pode sua pesada mala e atravessou o saguão do aeroporto em direção à pequena e discreta livraria que se instalara ali por essa época. “Brochuras pecadoras, se cuidem, estou chegando!”. Quatro meses antes, ainda em Londres, Silene Enelis manteve os olhos fixos em suas mãos cruzadas na frente daquele amante ocasional. Ela olhava fixamente para os nós dos seus próprios dedos brancos enquanto ele tentava controlar sua raiva ao ser tratado como uma criança. O homem estivera fazendo um trabalho desumano numa fábrica de cimento desde que ele tinha quatorze anos, seu torso bronzeado e suas mãos maltratadas eram evidências desse fato. O que ele realmente precisava era de uma cerveja e um par de doses de tequila para ordenar a bagunça toda que também afetara sua cabeça operária. Entretanto Silene lhe oferecia mais do que isso. Ao abrir sua bolsa ela desfilou pelo quarto, enquanto ensaiava um titubeante tango argentino. Neste ato ela exibia um envelope pardo ao qual tecia loas por conter um barato que valeria por um milhão de tequilas e cervejas. Depois, por agir de maneira afoita, as pílulas de LSD haviam deslizado para a madeira não polida, cheia de poeira, do criado-mudo. Os dois estavam no quarto dos fundos de uma casa abandonada nos arredores de uma fábrica de cimento. Eles haviam se conhecido meia hora antes num pub da região. Logo se entenderam de passar a noite no quarto daquele homem que tinha a aparência desleixada e rude de um estivador. Ela riu ao adentrar aquele quarto imundo. Contudo, ambos sequer falaram sobre a poeira de cimento reinante por ali, aliás nem estavam atentos para aquela poeira. Contudo. Todas as frinchas daquele quarto abandonado lançavam fachos da nascente luz solar que atingem, inclusive, com reverberação incontida, seus corpos nus. James King, o operário do cimento, acordara mais cedo. Silene Enelis ao abrir os olhos sentiu um asco tremendo. Naquele quarto repleto de pó de cimento, ela se assustara com o corpo de um homem estendido no chão. Ela estava confusa pelo LSD ingerido na madrugada. Silene estivera viajando num mundo de celofanes multicoloridos. Onde. A cada dose a realidade se afogava em indizíveis formas, diante dos caleidoscópios vivos que se tornaram seus olhos. Tudo amealhava fantasias, diante de um céu composto por diamantes lindíssimos. Mas Silene despertou com James gemendo de dor. E ele, sobremaneira, a assustou com seus gemidos, por ter uma faca cravada nas costas. Diante desta visão ela desmaia. O promotor do condado utiliza-se de um lápis amarelo que ele estava usando como um bastão para conduzir a ladainha sobre certos crimes ocorridos na periferia de Londres. O promotor se virou para olhar para aquela moça de dezenove anos de idade que viera à sua mesa sendo acompanhada por dois guardas que a acompanharam desde o setor gradeado, passando por um corredor estreito, sendo dirigida até a sala de audiência. "Meritíssimo, esta moça de aparência inocente tem várias prisões em seu registro, incluindo dirigir sem licença, beber em locais proibidos para estrangeiros, destruição maliciosa de propriedade pública ao urinar premeditadamente na bandeira da Inglaterra, e também assalto... Assalto a mão armada... Senhor Juiz, eu estou sendo apressado na leitura desta ficha criminal... Para mencionar... Outras coisas de que esta moça poderia ser acusada... Como, por exemplo, a morte do operário James King...”. O dia amanhece naquela cidade satélite de Londres. Silene está com James King no quarto dos fundos de sua casa de campo. Há relinchos de cavalos vindos de uma cocheira anexa ao luxuoso quarto de James. Eles se conheceram num pub local e, duas horas depois, ali estavam em conluio de vicio, dividindo alguns comprimidos de LSD. Ela se apresenta totalmente nua e um dos comprimidos de LSD lhe escapa pelo vão dos dedos. Quando Silene o recolhe do chão, o comprimido se apresenta alongado e lembra muito a aparência de uma hóstia. Silene então mastiga a hóstia, e ela está com gosto de sexo e pecado. Silene adormece. Agora, na audiência pública, a mãe de James King, a quem o promotor brincou ao tratá-la por “rainha”, suspirou e, ainda sem se virar para olhar atentamente para Silene Enelis, a qual estava sentada num dos bancos fronteiriços que se destacava naquela pequena sala do tribunal. A mãe de King não olhou, mas sabia que ela estava balançando a cabeça negando o crime, tentando fugir como uma cadela, mas ainda com o gosto da isca de veneno em sua boca. Ao fundo da sala de audiência. Sentado tão longe da mãe de King o quanto possível, Mr. Alfonsus, o pai adotivo da vitima, inclinou-se contra a parede, algo sobremaneira rude, tanto que seu chapéu de vaqueiro lhe caiu sobre os olhos. Era como se ele estivesse dormindo, de braços cruzados, com as mangas da camisa preta desbotada, algo enroladas até os cotovelos, de modo que a turva tatuagem da silhueta de uma mulher nua parecia estar ao longo de seu antebraço como um lagarto esmaecido. Num repente o promotor vira-se para o advogado de Silene Enelis, um homem de pele encarquilhada e de aparência cansada, posto em sossego, aos modos de reles testemunha, nas arquibancadas do fórum. O promotor limpou a garganta ao se dirigir à ele: “o senhor teria algo para acrescentar?”. O velho advogado abriu os braços como se não estivesse entendendo a pergunta e responde um “talvez” de forma até cômica. Algo inusitado por certo, tanto que o juiz levantou a mão e, enquanto escrevia notas sobre o caso em questão, olhou demoradamente para Silene e depois para seu advogado. Em seguida o juiz voltou a rascunhar algo em suas notações para logo retornar à sua posição estática de rábula experimentado em audiências enfadonhas. Súbito um zumbido de mosca. Silene Enelis sente calor dentro da imunda edícula em que dormira na fábrica de cimento. Ela acorda, se espreguiça, e não vê James King ao seu lado. Imediatamente ela se levanta e olha através das frinchas daquele quarto repleto de poeira de cimento. Lá fora ela vê James King que troca diálogos ríspidos com um senhor estranho que está montado num cavalo negro deveras ensopado de suor. Silene reconhece este senhor como sendo Mr. Alfonsus, o pai adotivo de James. Ela continua observando os dois enquanto James se afasta e, para seu extremo horror, observa Mr. Alfonsus descer lentamente do cavalo e apunhalar James King pelas costas. Silene se põe a gritar sem parar, principalmente quando James adentra o quartinho de forma abrupta, já sem sentidos, e cai aos seus pés. Silene tenta arrancar o punhal cravado nas costas de James, muito embora, com isto, ela se incrimina ao deixar ali suas impressões digitais. Silene Enelis tem essa visão crítica enquanto está sendo confrontada com os fatos, agora sentada no banco das testemunhas. Subitamente, na audiência, ela deixa todos boquiabertos, pois alega ao juiz que possuía algumas evidências que iriam mudar o rumo das investigações. Todos estavam esperando pelas tais evidências quando justamente Silene aponta para o fundo da sala, em direção à Mr. Alfonsus: “ele é o criminoso!”. Mr. Alfonsus nem sequer se assusta, pois está com o rosto um tanto tombado para a direita, donde lhe cai uma baba pelo canto da boca, logo amparado por uma enfermeira que o assiste na condição de um entrevado, martirizado que está, há mais de dez anos, preso à uma cadeira de rodas. Todos riem no tribunal e Silene Enelis deixa de lado aquele livro barato que estava lendo no saguão de espera do Aeroporto Santos Dumont. O alto-falante anunciava o próximo vôo para Nova York. Ela teme perder aquele vôo, quando se levanta apressada e deixa aquele pequeno livro de aventuras jogado no banco. Com isto Silene Enelis, a qual durante a breve leitura se sentira no lugar da ré, jamais saberá quem realmente matou James King.


Beto Palaio

março 10, 2013





UM LIVRO EM BRANCO

Numas. Safadezas em voga no escurinho do cinema. Desmaia as pontas dos dedos na meia de seda. Ao adivinhar o reduto de rendas, ao fundo de pernas pecadoras. Ela. Entrega-se à passadeira. De mãos. Com uma fita americana desfolhando. Na saborosa matinê. Ele. Despenteia limas doces. Línguas dulcoram em hortelãs. Em respirar profundo. Cenas dirigidas. E estão. Mais que. Comprovadas. Aquém do território de cetim. As ligas. Aconselham desabotoares. Beijos zunem. Imunidades. Perfumes vadios. Dedos deslizam. Em permissão. Ao frenesi. Das beiradas. O generoso púbis. De pronto. O filme saiu da penumbra. Os personagens caminham num ambiente tipicamente rural. Flashes de luzes siderais. A menina está feliz com seu cão. Acomodada sobre uma carroça de feno. Doroty domina a tela inteira. Em preto e branco. A chamar pelo seu boneco de lata. Além do arco-íris. Passeia um coração juvenil. Com seus sapatinhos de rubi. Entretanto. No lado de fora. No compasso do mundo real. Observa-se um trecho da calçada. Já longe do cinema. Um perfume de pipoca feita na hora. Os namorados, atrevidos no escurinho, jamais serão os mesmos. Eles apenas se dão as mãos. Falam do filme. Dos temas musicais. Dos atropelos de Doroty. Da excelsa magnitude da sétima arte. Tudo não passava agora de uma esmerada ilusão. Pois. O cinema é cachoeira. Urdido em industriosa técnica. Borrões no tanto que ilude. Nestas. Notações à margem do papel onde se escreve uma estória verídica. Hoje só escrevo para, com justiça, declarar que um dia amei de fato esta mulher. Registro estes acontecimentos, então, leia e, se puder, releve ou, caso contrário, esqueça o que escrevo. Vínhamos pela Cinelândia. Compenetrado era o andar, no tempo dos bondes, pelo centro do Rio de Janeiro. Logo ao sairmos do cinema. Ela era uma outra pessoa. Não passava de uma estranha para mim. Será que éramos monstros do desejo apenas no escurinho do cinema? Então, às vezes, de repente, todas as chamas estão na captura de um ar em que respire. Quando outra vez eu estava ofegante. E tentava beijá-la no meio da rua. Mas ela se esgueirou em negativas. Temia pelas pessoas que nos olhavam. Imaginava dessas pessoas serem amigas de seus pais. Isso até lhe dava dores de cabeça. Em azafama. Nem lembro quanto tempo nós vagamos, desde a Cinelândia, até o ponto do bonde para o Catete. Falávamos pelos cotovelos, em atropelo, dentro de meus pensamentos, ofendia minha incompetência, à olhos vistos, num tal arroubo, para a pessoa que me tornara um ciclone de amor, um azougue no escurinho do cinema, agora na calçada umedecida pela chuva da tarde, este pecador se fez de morto. As coisas estariam se descartando? Por que ela me via como uma ameaça assustadora? Ilegítima em sua essência? Eu sei que ela nunca iria me responder, nunca respondeu, aliás. Ela, a minha namorada, mesmo após efêmeras entregas, entrou naquele bonde e sequer olhou em direção à calçada. “Será que ela vai olhar para mim?”. Mas não olhou. “Que fazer? Depois ligo para ela? Agendarei novamente um cinema para o próximo Sábado?”. Ao andar a pé, solitário, eu observo os outros, transeuntes anônimos, evidentes exemplos de uma cidade inteira, estes passam por mim. Inclusive. Ao melhor do exemplificado. Observei um casal sentado num banco de praça. Tentava ficar indiferente à mágoa que me invadia. Entretanto. Bem ali na minha frente. Um homem e uma mulher estavam voltados para o amor incontido. Beijando-se na boca. Incansáveis carícias aos olhos de todos. Estariam errados os dois? Todos aqueles minutos que andei a esmo. Vinha eu pela Riachuelo, rumo Lapa. Na pensão onde morava, apenas o fiel cão da proprietária me fez festa. Algo me dizia que o amor era um erro. Em alguns momentos, o amor se oferecia para mim com vozes feitas de carne, em outras ocasiões, o amor era apenas uma vaga referência. Com este qüiproquó instalado. Eram múltiplos os tons de significado, embora, no final, tudo o que restasse era a ausência da pessoa amada. Ficou em mim a dúvida. Por que ela se afastara de mim ao sairmos do cinema? A nossa paixão tórrida, quando até ignorávamos o filme, não teria valido de nada? Tanto aquilo me incomodou que naquela mesma noite tive um sonho bem realista, onde a minha amada participava. Neste sonho nós vínhamos por uma alameda arborizada que logo nos leva aos estreitos corredores de um cemitério. Ali, entre cruzes, inscrições e centenas de fotos anônimas, ela começou a me jogar pedras. Umas. Ouvia claramente o clique das pedras coletadas por ela ao chão. Eu estava perto de um arbusto, fugindo das pedras, quando olho para trás e vejo um abismo que se abre. Neste abismo eu caio. Mesmo agora, os detalhes crescem em mim numa sensação de desmaio. Eu tento esquecer deste sonho. Banir tudo da minha mente. Rolo na cama. Uma insônia terrível se instala, embora parte de mim quer se lembrar daquele sonho. Quando volto a dormir esse mesmo sonho tem continuidade. Ela, a minha namorada, agora surgia como uma criança que me apontava o túmulo de sua mãe. Desta vez, sem pressa, sentei-me atrás dos arbustos acompanhado de alguns de meus livros. Uma vez que, brevemente, ela me pediu para que lesse para ela um poema. Neste sonho singular eu me atrevi a abrir um livro qualquer. A minha voz ficou embargada ao tentar ler o que via. E o que via era o nada: as páginas daquele livro estavam em branco. Ainda assim olhei para aquela menina—minha namorada, por certo—e a vi sentada no recesso de uma pedra de mármore, anexo ao túmulo de sua mãe. Mostrei-lhe então o livro em branco. Ela fez um sinal que entendia o que eu lhe mostrava. Depois falou diretamente para mim de uma forma, inclusive, petulante: “eu sei que o livro da nossa vida está em branco”. Mas me inquietou mais ainda o que ela disse depois: “o que será escrito sobre a nossa união terrena está em seu poder”. Ela estava sorrindo quando completou: “invente o nosso livro... Escreva você mesmo o que acontecerá no futuro de nós dois”.


Beto Palaio

março 05, 2013




A CAMA NA LAMA

Ela era a rainha da cama alheia. Dizia que me amava, mas também amava descaradamente a qualquer outro homem. Deixou de lado a xícara de café. Fustigava aflita, ao jornal da manhã. Aborrecida por ali não encontrar algo. No caminho solitário dela procurar por noticias vagas. Naquele periódico matutino de Domingo. Logo o dia passa. Final da tarde. Parece que ela encontrara a notícia do casamento de um amigo. Para isto ela se produziu aos requintes. Depois saiu vestida de branco. Havia chovido durante todo o dia. Para espanto dos que por ali passavam. Ela escorregou e caiu no recesso do acostamento de uma rua argilosa. O sol surgiu timidamente às cinco horas da tarde. Ela arfava enquanto eu olhava para ela sem ação. Tentei tirá-la da lama. Mas ela era tão pusilânime em suas determinações. Detestável criatura. Alguém mais tentou levantá-la do chão. Dei um sinal de snap com dois dedos, imediatamente esse bom samaritano recuou. Parecia que toda a rua estava tranqüila, exceto pelos martelos dos carpinteiros, batendo pregos num telhado vizinho. Eu nunca tinha visto tal abandono, ao meio do qual ela nem se mexia dentro da poça de lama. Deitada ela estava, deitada ficou. "A mulher está morta?”, perguntou um dos carpinteiros, se intrometendo num assunto de família. Olhei fixamente em direção ao telhado, então ele voltou a bater seu prego como se nada houvesse dito. Um menino passou de bicicleta e desferiu o seu veredicto: "a mulher enlameada está morta... ela está morta, ela está morta!”. Apesar das aparências, eu sabia que não era verdade. Ela era apenas um feixe de braços e pernas que não se esforçavam por ajudar o corpo a se levantar. Na lama ela se sentiu em casa. Ficou à vontade. Até acendeu um cigarro, um algo que surgiu de sua bolsa já completamente sujo de lama: “não valho nem isto”, disse ela levantando o cigarro manchado e úmido: “eu pensei que fosse uma pessoa vazia, mas esse casamento vai me deixar mais vazia ainda... tudo está consumado”. Contudo não deu para ela filosofar por muito tempo. Pois de uma casa próxima alguém lhe agitava um lenço, ou algo parecido. Sua mãe saiu da casa, e seu grito subiu as paredes em um uivo. De todos os lugares surgiram mais mulheres correndo. Sua mãe era magra e de aparência macilenta. Essa mulherzinha determinada apareceu com mais três amigas e, mantendo um cigarro grudado nos lábios magros, ajudou a carregar a enlameada até o pátio do jardim de sua própria casa. Logo surgiu uma demanda de primos, primas e mais alguns agregados da vizinhança. Alguém acendeu a luz do pátio. A enlameada virou-se de costas para a luz e disse: “Jesus fez isto comigo... no fundo ele tem ódio de mim”. Sua mãe ruminou uma resposta, dando baforadas no cigarro sem o tirar da boca: "não diga uma besteira dessas”. Depois a enlameada me puxou para perto dela, afoita, tanto que eu mal podia respirar: “faça alguma coisa, seu idiota, eu não quero mais ter de te trair”. Evidentemente ela estava se referindo ao casamento do amigo em homenagem a quem ela fez até o favor de cair, literalmente, na lama. Com o barulho no pórtico da casa, o seu padrasto acordou e veio até a porta bisbilhotar: “mas o que é isso?... alguma brincadeira de excelentíssimo bom gosto?”. Ela detestava seu padrasto e lhe respondeu de maneira lacônica: “vai se foder, Joãozão!”. Agora, no entanto, Joãozão poderia até ser considerado como seu “pai”—na verdade ele era seu pai de fato, algo que o próprio Joãozão nunca quis que admitissem—e também porque ele estava definitivamente casado, “no papel”, com sua mãe. Mesmo assim a enlameada nunca o chamara de pai. Ela tinha sido ensinada a chamá-lo de Joãozão. Ninguém sabia o porquê disto. "Você vai sujar de lama o piso do terraço... Depois quem se ferra para limpar isso sou eu!”. Isto disse Joãozão que logo desapareceu, pois sabia de antemão o teor de respostas de que seria capaz sua filha. Mas, ao invés de responder ao pai, ela me olhou demoradamente, havia um trecho de seu rosto que estava isento da lama, aquilo a deixava com a aparência estranha de um ser vindo de um outro mundo: “me ajudem a levantar... vou nesse casamento de qualquer maneira... alguém procure um táxi para mim... não fiquem me olhando com essas caras de idiotas... me chamem um táxi!”. Sua mãe estava tremendo. "Ela não pode fazer isso", disse ela. "Ela não faria uma coisa dessas!". Depois sua mãe atirou-se para frente e, tendo de passar ao meio de dois ou três curiosos, sussurrou ao meu ouvido: "menino, acho que basta de palhaçada... leva a louca da minha filha para sua casa e dá um banho nela”. Mas a enlameada pareceu adivinhar o que a mãe me pedia: "Salomé, sua bruxa, fique quieta!". Foi um grito que se ouviu desde a rua. Num repente sua mãe passou a gritar mais que ela. Aquilo feria meus ouvidos. Logo surgiu mais gente para ofender a enlameada. Sua irmã também gritou. Todas as mulheres estavam gritando. Apesar da comoção geral, sua mãe me segredou baixinho, como num sussurro: "trouxe essa mal-agradecida ao mundo... dei-lhe de mamar... cuidei para entregá-la gentilmente à vida... me diga o que ela faz para me agradecer?". Agora nem adiantava protestar. Sua filha enlameada entrou no táxi que a esperava ao portão e seguiu em frente, com lama até na alma, para assistir ao casamento do homem que mais amava.


Beto Palaio

março 02, 2013





VERBO EGO


O ego é um verbo. Tão intransitivo que por ele nada pode trafegar. Basta um capricho a mais. Ou ameno temor. Alfinetadas de solidão. Algo um carinho adiado por vinte anos. Miléia acostumou-se ao muito pouco amor. Para ela o amor era como uma bandagem, um pano mambembe, que cobre pessimamente ao ferimento. Um sortilégio para poucos. Enganação para sôfregos. Fabulas que mais desencantam que orientam. Grandes expectativas para tão pouca oferta. Isto tudo Miléia pensava do amor. Calhou de ser assim até que Miléia conheceu Canópio. Eles moravam numa cidade pequena. Claro que Miléia já havia visto Canópio uma vez ou outra. Ou na avenida principal da cidade. Ou bebendo com amigos. Ou circulando no seu fusca já um tanto enferrujado. Mas Miléia não tinha amizade declarada por ele. Nada contra. Apenas que Miléia era mesmo uma reclusa. Apesar de ainda estar na casa dos trinta anos. Ela pouco saía. Deixava sempre para amanhã se precisasse ir até a cidade. Preferia ficar com sua velha máquina de escrever. Ali o seu mundo abria-se ao incomensurável. Novidadeira como ninguém. Contadora das mais estapafúrdias estórias. Sua única companheira. Além da literatura, gentilmente escrita em um datilografar constante. Era sua cadela que chamava de Loba. Isto sendo uma homenagem. Pensava Miléia. À escritora inglesa Virgínia Woolf. “Vem minha linda Loba, chega de ficar me olhando escrever... Agora vamos passear no jardim”. Pois Loba era uma companheira inseparável. Miléia compartilhava com ela todos os momentos. Inclusive a cadela tinha uma paciência enorme de permanecer ao lado de Miléia enquanto ela destinava seu tempo em escrever frases, textos, pensamentos, poesias e poemas. Parecia que nada poderia romper esta parceria entre ela e Loba. Nada chegava a corromper esta inocência, ou perturbar o oscilante manto do silêncio no qual, semana após semana, naquele cômodo vazio de artifícios, ondulava o chamado distante de um bem-te-vi, o apitar da fábrica de tecidos, o zumbir dos insetos na ramagem do jardim, um latido eventual de um outro cão na rua, um grito alegre de criança a perseguir sua pipa e, no mais, um silêncio profundo envolvia os ternos momentos de Miléia e Loba. Mas logo um resumo de dor ocorreria. Inesperadamente. Loba desapareceu numa manhã de Domingo. Miléia se pôs verdadeiramente louca. Ela e Loba eram como carne e unha. Agora estavam separadas pela primeira vez desde que Loba ainda era filhote. Meio que sem saber aonde ir. Miléia andou todo o Domingo a perguntar pela sua Loba. Mas nada da cadela aparecer. Assim, de mãos vazias, Miléia voltou para casa e não teve ânimo para mais nada. Deixou-se abandonar na velha cadeira de balanço no pórtico. E ali ela permaneceu. Envolvia-a ao tudo, a casa vazia, na ausência de Loba, um terrível silêncio. Ela que tinha especial zelo em manter seu mundo em isolamento, agora estranhava tanto sossego. Miléia imaginava que Loba estivesse também procurando por ela em algum lugar ao longo da rodovia, ou no entorno da única lagoa do lugar, ou nas ruas da cidadezinha, ou nos monturos abandonados no pátio da fábrica de tecidos. Dois dias depois Miléia estava tentando escrever algo diante de sua escrivaninha quando ouve passos no quintal. Ela vê pela janela que alguém chega carregando Loba. Esse alguém era o moço Canópio. A alegria do seu reencontro com Loba se torna indescritível. Apesar disto um algo mais do que bom pairava no ar. A presença de um homem tão gentil. O que seria isto? Charme masculino? Retidão de caráter? Fosse o que fosse Canópio lhe transmitia isso. Miléia fica embevecida e também deveras agradecida por aquele gesto. “Quer café?... Tem bolinhos que fiz... Quer?”. Assim, pela primeira vez, um homem entrava naquele espaço da escritora reclusa. Um tanto surpreso. Canópio recebe festas também de Loba, que retornou para casa com essa novidade de um homem formoso estar adentrando um dos últimos redutos de virgindade do município. Miléia estava na cozinha preparando o café. Mas percebe de longe a alegria de Loba, ao ser acariciada por Canópio. Tão logo a palavra ''acariciada'' lhe ocorreu, ela a rejeitou. Um verbo ego ainda a cercava, além do perfume de café recém coado. De tudo o que existe nada é tão estranho quanto as relações humanas, com suas mudanças e impropriedades. O doar-se ao outro e os lampejos de uma extraordinária irracionalidade. Naqueles breves minutos. Miléia tinha certeza de estar ficando deslumbrada, ou algo assim. Sentia suas pernas bambearem. Começou a escutar sugestões de vozes, tanto que nem conseguia se concentrar nas xícaras e pires que colocava numa bandeja. Já na sala de visitas. Ela sentiu um agradável tremor quando percebe o perfume de um corpo masculino tão próximo, ao indicar a bandeja de café para Canópio. “Você me deu muita alegria em encontrar a Loba...”, ela disse, ainda um tanto tímida. Depois completou: “você foi bom para mim, como ninguém poderia ter sido”. Canópio sorvia o café com um orgulho incontido. Parecia medir as palavras que iria dizer. Neste intervalo o tiquetaquear do relógio da sala ganhou de tudo. Mas Canópio logo fala: “posso te perguntar algo?”. Miléia toma um susto, ela recebera com surpresa aquela pergunta. “Sim, claro”. Ele depositou a xícara na bandeja e fala: “quer ir ao cinema comigo qualquer dia desses?”. Era um momento indizível para Miléia. Seu coração parecia bater num mundo distante. Sua voz não saía de jeito nenhum. Mas ela fez um discreto sim com a cabeça. E depois sorriu.


Beto Palaio




Colagem: Toyen

março 01, 2013

Beto Palaio

AS LAPAS

Brinque, brinque, brinque.
E esqueça, esqueça, esqueça.
No Brasil tem tanta Lapa!
É Lapa de Cima, Lapa de Baixo. Inclusive a Lapinha da Serra do Cipó. Ou a Lapinha do Canto de Oxóssi.
Mas contemple a Lapa dos Arcos, carioca da gema, ou contente-se com a Lapa paulistana da Doze de Outubro.
Sim, de norte a sul tem muita Lapa!
Mas economize seu tempo e não ouça mais nada sobre lapas. Porque a lapa real é um vazio sem nada dentro.
Lapa  é buracão socavado na pedra.
Lapa é abismo, lapa é escuridão.
Inclusive tentaram salvar os desavisados dos perigos desta lapa. Tentaram dourar a pílula da lapa.
Mas lapa que é lapa nunca muda. Valha-me Nossa Senhora da Lapa! Com lapa não se pode brincar.
Mas esqueça, esqueça, esqueça.
E brinque, brinque, brinque...


#########################


O EQUILIBRISTA

Minha vida é um trapézio
Sem rede para segurar minha queda
Olho para o vazio abaixo
Mas não caio

Meu andaime é a corda bamba
Com um equilibrador como cúmplice
Ao caminhar resoluto, bambeio
Mas não caio

O público ovaciona a travessia
Minha ex-mulher grita "tomara que caia"
Meu patrão rasga meu holerite
Mas não caio

A corda bamba é feita de arco-íris
Há um anjo em cada ponta, protetores,
Pula na corda um deus menino
Mas não caio

Uma diáfana mãe vem me seguir
Na corda com seu próprio equilibrador
Ela passa com receio que eu caia
Mas não caio

Há nesta corda um grifo nebuloso
O próprio universo que vem se regozijar
Do tempo que empresta e toma de volta
Nele eu caio.  

(Beto Palaio)


#########################

  

março 23, 2012


A INCURSÃO BEATNIK NO RECANTO
DO MILENAR HAICÁI JAPONÊS.

O haicai beatnik. Um salto breve para três estrofes. Onde tudo se transforma em poesia. O encontro de duas culturas. Sons da grande cidade encobrindo o versejar de grilos paradisíacos cantando em gramados e tempos distantes. Um hiato de paz no pós-guerra. Todos estão reunidos em volta de uma mesa de restaurante. Ao entra e sai das novidades. Nova York, 1959. No restaurante os camarões num prato pronto estão, por detrás do vidro do balcão, numa gritaria sem letras. Do andar a esmo ao filme noir. O borbulhar de champanhe da soda misturada ao uísque. Bobo de quem não versejasse, algum dia, algum lábio, algum dente, ponta que seja, que morda a cultura ocidental, humana ao excesso, saboreando de vez a escrita, curta, sertaneja, incauta, silenciosa, wabi sabi, sacerdotal do haicai.

Mundo cão do lado de fora. Sonhos, ruas vazias, chave de casa. Naquele bar amigável. Os amigos se confraternizam. As cãs brancas dos passadistas nem se aproximariam da porta deste café. Os tamboretes, súbito brilham, ganham vida. O gato mascote, propriedade da casa, adivinha tempestade. Os bichos mortos, habitantes de poesias longevas, são entregues ao sacramento. Allen Ginsberg, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti e Jack Kerouac descansam seus textos. Filtros dormentes, em golfadas de cais, datilografam feericamente, numa canoinha de Newton. As maçãs-textos abarrotam as árvores da poesia. Logo se saberá.

Cada pequena coisa que revolucione, aperta o passo, e alcança a década de sessenta. A arte americana é quem comanda o espetáculo cultural. Paris não está mais em chamas. E os sinos que dobraram pela Segunda Grande Guerra, estão silenciosos. Ad Reinhardt pinta suas telas negras. Joseph Cornell se ilustra ao adornar suas caixas herméticas com esmero que evita o Dada. Andy Warhol empilha latas de Sopa Campbell´s. Merce Cunningham assumiu o palco, a coxia, o camarim e o bastidor, inclusive, naquela tarde, ele posara para uma foto onde aparece ao lado de John Cage e Robert Rauschenberg. Roteiro e orvalho acompanham os novos poetas. Jack Kerouac volta para sua casa no campo. Escreve, cria gatos, ouve os vizinhos, ralha com as crianças, teme as tempestades, foge do homem do aluguel:

Balas de jujuba, /no meu livro Zen, /meus joelhos doem ♦ Flores que madrugam, /penso a respeito, /dos bêbados do México ♦ Nenhum telegrama hoje, /somente algumas folhas,/ que caem ♦ A noite cai,/ um garoto amassa dentes-de-leão,/ com uma vareta ♦ Mostro para a lua,/ o meu gato ronronante,/ e eu mesmo suspiro ♦Bebado como uma morsa,/ escrevendo cartas,/ ouvindo a tempestade ♦ Passo o dia inteiro,/ usando um chapéu,/ que não estava na cabeça ♦ A noite cai,/ muito escuro para ler,/ muito frio aqui fora ♦ Um seguindo o outro,/ meus gatos param,/ quando troveja ♦ A sola de meus sapatos,/ estão limpíssimas,/ por ter andado na chuva ♦ Feche seus olhos,/ o dono da casa está batendo,/ na porta dos fundos ♦ Tão linda noite de outono,/ e esses tolos aqui do lado,/ começam uma briga ♦ Belos muros de Detroit,/ domingo à tarde,/ pedem uma mijadinha ♦ Haicái uma ova,/ para mim chega,/minha mãe está chamando.

A árvore de haicais existe. Lineu, o inventor do pop-out criacionista, donde tudo que respira surgia em árvores, jamais poderia prever uma árvore tão frutífera como aquela que, em pencas, gera os haicais. Essa crença de chegar esticar o braço e pegar o fruto. Aos beatniks o grande caminho ofereceu todas as árvores. O primeiro a se fartar foi Gary Snyder, o mentor Zen de Jack Kerouac. Tão importante foi esse amigo e guia do Zen para Kerouac que, lado a lado, estudaram (e praticaram) poemas de formatação chinesa, diretamente traduzidos do místico Han Shan, também conhecido como "Montanha Fria”. Com isto, o próprio Kerouac , ao fartar-se diretamente nessa fruteira, recorda como Snyder é sucinto ao se expressar sobre a tônica dos haicais:

- Presta atenção meu jovem, um haicai verdadeiro tem que ser tão simples como mingau e ainda fazer você ver a coisa como ela é. Veja esse exemplo que salta aos olhos e que imagino ser o maior haicái de todos: O pardal saltita / ao longo da varanda /com os pés molhados (Masaoka Shiki). Jack aqui você praticamente vê as pegadas molhadas como algo que existe na sua mente... Entendeu?... Eu acrescentaria que mesmo fazendo uso econômico de palavra esse haicai faz você sentir-se úmido até a alma, pois você praticamente vê a chuva que caiu naquele dia e pode sentir até o perfume dos pinheiros que está tão ensopado como o pardal.

Alguns haicais de Gary Snyder, o montanhista e preservacionista que também apareceria como personagem num romance de Kerouac chamado Os Vagabundos do Dharma:

Meu cachimbo apagado / Ao lado do Sutra do Diamante / Dá o que pensar ♦ O homem não foi contratado / Então comeu sua marmita sozinho /A sirene do meio-dia toca ♦ Um caminhão passou / Há três horas atrás / Deserto de Smoke Creek ♦ A luz da lua / Bate no templo queimado / Coco de cavalo endurecido ♦ Por semanas observei a goteira / Tapei-a num minuto apenas / Encaixando a telha solta ♦ Uma bela mula ruana / as rédeas vão soltas / Quarenta milhas da fazenda ♦ O grande trem cargueiro / Uma cidade ambulante / Atravessa o deserto pedregoso.

Decidam vocês mesmos se o aluno Kerouac não superou o mestre Snyder:

Braços cruzados / Oferecidos para a lua / No meio das vacas ♦ Pássaros cantando / No meio da penumbra / Dia chuvoso ♦ Errei o chute / Na porta da geladeira / Ela fechou assim mesmo ♦ Tarde de Julho / Uma rã gordona / Na soleira da porta ♦ Um bagre lutando pela vida / Ganhou a batalha / E ainda nos molhou ♦ A tarde chega / A secretariazinha / Afrouxa seu cachecol ♦ Em pálido amarelo / A lua logo acima / Do nosso lampião ♦ Um sabor / De chuva /Porque se ajoelham? ♦ A chuva encheu / O bebedouro dos pássaros / Até em cima ♦ Um gato quieto / Ao lado do poste / Observa a lua ♦ Esses pássaros sentados / Ao longo da cerca / Todos eles um dia morrerão ♦ No armário do banheiro / Uma mosca da temporada / Morreu de velhice ♦Pegadas de garotas / Ao longo da areia / Galhos com musgos ♦ Neon no restaurante chinês / As meninas se aproximam / Em tons diversos.


Beto Palaio