outubro 12, 2008

CLARICE LISPECTOR E O OVO



(Conto de Clarice Lispector, com leitura de Fellipe Foureaux)

outubro 10, 2008

Anja Schrey



Escondida” 2006 - Lápis de cor

setembro 30, 2008

AQUARELAS DE BETO PALAIO

(Todas em papel Vergê 220 grs, tamanho 44x32 cms)


"No Sireama" - Aquarela e plástico derretido - Beto Palaio – 2002


"Será Arte" - Aquarela e plástico derretido - Beto Palaio 2001
AQUARELAS DE BETO PALAIO


(Ser Vos Am Or) - Aquarela e plástico derretido - Beto Palaio 2002


"Hijas" - Aquarela e Plástico derretido - Beto Palaio – 2001



"A arte é um ramo da arte" - Aquarela e pástico derretido - Beto Palaio 2002


"Proveres" - Aquarela e plástico derretido - Beto Palaio – 2001
AQUARELAS DE BETO PALAIO

(Todas em papel Vergê 220 grs, tamanho 44x32 cms)


"Quai" - Aquarela e plástico derretido - Beto Palaio – 2001


"Sovaco e Morcegos" - Grafite, aquarela e plástico derretido - Beto Palaio – 2002

setembro 22, 2008



Nos anos 60 Carlos Heitor Cony lançou vários livros de peso, muitos confessionais. Depois sumiu, andou pelo jornalismo, até ser redescoberto nos anos 90. INFORMAÇÃO AO CRUCIFICADO foi escrito em formato de diário, quem conhece a biografia do autor pode achar que é confessional, eu acho isso. O título é o vol .32, da célebre Coleção Vera Cruz, da Civilização Brasileira, lançado em 1961. Muitos romances foram escritos em forma de diário, este parece ser um deles, e este blog pretende juntar estes diários “ficcionais” também, de modo que não estranhem. O pedaço do diário abaixo corresponde ao começo do livro.

1944
7 de março

Dia de São Tomás de Aquino. Padroeiro dos filósofos, padroeiro da divisão. Sim, filósofo, olho-me no espelho cheio de importância, sou um filósofo, o italiano que me fez a batina nova botou no embrulho: “Ao filósofo João Falcão, no 28”, sou eu mesmo, filósofo João Falcão.
Data festiva no Seminário. Fim do longo retiro espiritual com que se inicia o ano letivo.A semana inteira em silêncio, muita capela, muita conta de rosário desfiada silenciosamente sob pátios coloniais.
Pela manhã: o jesuíta que fez as prédicas exaltou a alegria da Fé, a dignidade do Altar, a felicidade da vida cristã e devota. Convidou-nos a combater o bom combate.
Missa da comunidade celebrada pelo Senhor Arcebispo, na capela externa – nossa antiga capela colorida por vitrais de tardes de sol começou a ser demolida sob as picaretas que o Arcebispo benzeu há tempos e que deverão destruir o velho casarão bicentenário. Sobre as ruínas de dois séculos começam a edificar um seminário estranho ao meu coração.
O Deo-gratias no refeitório, pelo café da manhã. Pe. Reitor surgiu na porta principal:
- Benedicamus Domino!
- Deo-gratias!
De inicio um leve sussuro. Gradativamente o borborinho cresceu, tímido. E logo atingíamos ao tom habitual – barulho de duzentos rapazes, quase algazarra.Reencontro com o mundo, silêncio mutilado.
Habituara-me ao sossêgo daqueles dias. Sentia as palavras hostis. Ante a balbúrdia geral descobria na voz humana sons desagradáveis, todos, não é à-toa que os pássaros fogem do homem. Durante sete dias , rezara, ouvidos abertos à voz misteriosa que soa dentro, oculta-presente sempre. A Voz. Voz que um dia ouvi, inadiável: “vem e segue-me” . Fui.
Vozes:
- Passa a moringa.
- Olha a manteiga.
Olhei a moringa. Passei a manteira. Fui.
Irritação. Eduardo, a meu lado, catucou-me com o braço:
- Desembucha logo!
(Desembucha)
Falar, após sete dias de silêncio – uma capitulação. Há homens que não falam. Loucos, mudos. Ah, há também trapistas, fazem voto de silêncio. Pe. Cipriano quando esteve na Itália visitou o convento da Ordem, viu o frade velhinho que chorava quando ouvia voz humana.
Animais também não falam. Ou falam? Bolas, sou homem – um filósofo – dotado de inteligência e voz, falar é um direito, somos reis da Criação por privilégios assim.
Rei da Criação. Chamei o copeiro, mostrei a xícara:
- Olha que porcaria!
Vim ao estudo. Meu irmão deu-me um caderno grosso, lombadas verdes – completamente ridículo. Não me servirá para nada. Parece tombo de cartório, livro de Haver e Dever , algo estúpido assim.Penso em aproveita-lo com apontamentos de Lógica, mas já tenho caderno iniciado no ano passado.
Problema: que fazer do verde? Todos aqui fazem diário. Professôres há que recomendam a prática . Nunca disse nada, mas acho cretino se fazer diário. Vício manso, secreto. Não há de ser nada, vai ser mesmo diário.
A primeira página se foi.Pensei registrar tudo, não deixar um acontecimento sem registro. Acontece que não aconteceu nada – afora a mutilação do silêncio.
Há que ter história na vida de um rei – nada mais triste que rei sem história. Basta-me a lucidez: Rei da Criação. Tenho alma e uma enternidade a ganhar. Tarefa mais dura não há.


(Texto postado por João Antonio Bührer, no Grafolalia, em 2002)

setembro 14, 2008

O FORRÓ XIQUE XIQUE



Eu vi o cego lendo a corda da viola
Cego com cego no duelo do sertão
Eu vi o cego dando nó cego na cobra
Vi cego preso na gaiola da visão
Pássaro preto voando pra muito longe
E a cabra cega enxergando a escuridão
Eu vi a lua na cacunda do cometa
Vi a zabumba e o fole a zabumbá
Eu vi o raio quando o céu todo corisca
E o triângulo engulindo faiscá
Vi a galáctea branca na galáctea preta
Eu vi o dia e a noite se encontrá
Eu vi o pai eu vi a mãe eu vi a filha
Vi a novilha que é filha da novilhá
Eu vi a réplica da réplica da bíblia
Na invenção dum cantador de ciençá
Vi o cordeiro de deus num ovo vazio
Fiquei com frio te pedi pra me esquentá
Eu vi o cego lendo a corda da viola
Cego com cego no duelo do sertão
Eu vi o cego dando nó cego na cobra
Vi cego preso na gaiola da visão
A asa branca, a asa branca, a asa branca
E a cabra cega enxergando a escuridão
Eu vi a lua na cacunda do cometa
Vi a zabumba e o fole a zabumbá
Eu vi o raio quando o céu todo corisca
E o triângulo engulindo faiscá
Vi a galáctea branca na galáctea preta
Eu vi o dia e a noite se encontrá
Eu vi o pai eu vi a mãe eu vi a filha
Vi a novilha que é filha da novilhá
Eu vi a réplica da réplica da bíblia
Na invenção dum cantador de ciençá
Vi o cordeiro de deus num ovo vazio
Fiquei com frio te pedi pra me esquentá



Tom Zé e Arnaldo Antunes


FORRÓ XIQUE XIQUE