junho 05, 2016


Os esqueitistas

Silêncio, por favor, enquanto assisto o movimento dos rapazes com seus esqueites. Quem vê suas roupas largas, com calças maiores que as pernas, não se engane, não é despojo - é para que caiba a grandeza que há em cada um deles... Chegam em grupo, mas bem poderiam vir sozinhos, porque cada um vive seu momento ao mesmo tempo e independente dos outros. São incansáveis em repetir mil vezes a mesma manobra, às vezes cometendo mil vezes o mesmo erro, mas eles persistem, não se entregam ao erro - perseguem por instinto ou obstinação a perfeição. O esqueitista sabe que é preciso treino, aperfeiçoamento constante para conseguir a manobra perfeita, e querem conseguir exclusivamente o seu melhor, porque não há competição entre eles. Naquele instante, são apenas o esqueitista, o chão, o ar e o esqueite.  Em cada obstáculo tem-se um novo desafio, um limite a ser superado, um vencer o medo a cada instante. A cada segundo a sabedoria para hora ousar, hora manter o equilíbrio. O esqueitista não tem medo de machucar-se, não tem medo da queda - O esqueitista entrega-se. Corre, salta, cai. Nenhum de seus companheiros manifesta-se ou estende a mão. O silêncio é sinal de respeito e eles sabem que o outro é capaz de levantar-se sozinho. Cair faz parte da vida, e não importa quantas vezes caiam ou se machuquem, eles levantarão e tentarão outra vez.  Não, ninguém jamais os ensinou coisa alguma. O esqueitista apenas sente que dentro dele existe uma força enorme para realizar feitos incríveis, e em suas manobras e peripécias vão nos dizendo do jeito deles que por mais que erremos ou machuquemo-nos no caminho, devemos tentar sempre, porque, como eles, todos nós somos grandes, mas muitas vezes deixamos de acreditar nisto...

Augusto Branco

(Para João Luis de Oliveira, eterno esqueitista)

maio 30, 2016

DA BARRA PARA O PARANÁ: UMA AVENTURA
Meu avô Zé Fernandes era arrendeiro dos Pereiras. Tinha lavoura em toda encosta da Toca, do rio até o Canta-Galo. Morava numa casinha perto da lagoa, ali onde hoje é a casa do falecido Joca Pereira. À noite, ouvia, de uma lado, o barulho da cachoeira e, de outro, o esguelamento sem fim da saparia do banhado. A lagoa foi aterrada, mas subsiste por ali o coro dos sapos descendentes.

Um dia, ali chegou o rumor dos desbravadores e de seus sonhos no distante Paraná. Então, venderam tudo o que tinham, apuraram uns cobres e lá foram: ele, o padrinho Onofre e o tio Luiz.

Assim, foram parar em Corgo Rico, perto de Rancho Alegre. Ali moraram seis meses, só para fazer colheita de feijão e café, a serviço de um tal de Zé Conrado, mineiro de Varginha. Havia muitas famílias mineiras no lugar e sempre se encontravam no armazém do Ermínio, um italiano, lembrado ainda hoje como um homem bom.

Mais tarde, um Negro convenceu meu avô a ir para Nova Rondon. Viagem longa. Céu e mato por todo lado. Atravessaram o rio Ivai e foram parar nas terras de Demóstenes Luiz Mendonça e Claudinho Mendonça, donos de mais de dois mil alqueires de terra.

Lá tinha de tudo, café, feijão milho e frutas nativas que não acabavam mais. As capinas de lavoura não eram difíceis como as de Minas: o mato era raro e ralo e, na maior parte, somente aqueles delicados pés de mamão e melancia para cortar. Capinar era cortar pé de mamão e de melancia nativos.

Tio Luiz conta que tinha uma “peãozada enorme” na região, gente de todo tipo e de todos os lugares, aventureiros de família, criminosos fugidos da justiça e estrangeiros de fala enrolada. Como as mulheres eram poucas, quem as tinha vivia vigilante. 

Meu avô, quando saiu da Barra e botou pé na estrada, cuidou de levar com ele um rolo de cinco arrobas do melhor fumo que tinha produzido com sabedoria e arte, para consumo próprio. Não sabemos bem se ele adivinhou o valor de troca de um bom fumo para um pitador inveterado em terra estranha e erma. Só sabemos que ele ganhou prestígio, respeito, estima e mesmo veneração entre a “peãozada” daquele fim de mundo. Quando souberam da preciosa mercadoria, pelo aroma das baforadas e dos arredores de seu terreiro, não pararam mais de ir ter com ele, pedindo pedacinho de fumo, dois dedos, um tiquinho que fosse.

Seu Zé Fernandes era generoso na acolhida e no corte de um naco de fumo, que reconfortava até a alma dos pitadores visitantes. Assim, nunca teve problema com ninguém e, para aquela gente, era a imagem da bondade.

Os donos da terra permitiam o desfrute dela por cinco anos sem pagar nada. Meu avô progredia, tinha de tudo, inclusive, uma lavoura de café e a vida prometia dias melhores. Entretanto, as mulheres reclamavam muito daquela vida nos confins. Choravam para voltar. Um dia veio a gota d´água: viram três onças bebendo água no batedor de roupa e os choros e súplicas para a volta cresceram. Padrinho Onofre convenceu então meu avô a voltar.

Um dia, ele estava no porto do rio Ivai e apareceu por ali um itajubense chamado José de Nascimento com seu caminhão. Então meu avô decidiu: voltariam todos com ele para a Barra. Triste de dar pena, meu avô entrou no caminhão, deixando tudo, lavoura e sonhos de mais e mais lavouras – porque, estranhamente, meu avô nunca desejou posse de terras.

A viagem de volta foi longa e dolorida consumição de tudo o que tinham. O caminhão quebrou em Itaim e foram obrigados a ficar quinze dias em hotel esperando conserto. Depois disso, seguiram viagem, mas o caminhão se quebrou novamente em Conhal, com demora de mais quinze dias. Assim, o dinheiro acabou e passaram até fome.

Chegaram à Barra sem nada, nem o que comer. Eu me lembro da mobilização do meu pai e do tio Fernandinho, para que tivessem sustento. Meu avô se entendeu com tio Dito Pereira e foi morar numa casinha á beira do rio, bem defronte da casa do João Grande e da Sinhana, do outro lado do trecho espumante do rio. Padrinho Onofre ficou numa casa que tinha perto do pé da ponte, de onde o jovem e bom Zé Pereira caiu e morreu na enchente.

Morando ali, recomeçaram as lavouras, verdejando sempre do rio até a Toca e o Canta-galo. A passarada era tanta que o voo repentino era um trovão. O alimento era farto e, as matas, escassas.

                                     Genésio Fernandes, Maio de 2012.

maio 10, 2016





Amarelo.

Amarelo é caramelo
Amarelo luz do sol
Amarelo cor do tom
Amarelo cor do som
Amarelo gira o sol
Amarelo girassol
Amarelo
Amar é elo.


Mariana Lima de Almeida

março 13, 2016


Indômitus

O mar é uma esmeralda suja. 
Recifes de coral repontam como flores de sangue salpicado de espuma. 

(Coisa que explica naturalmente sangue róseo dos náufragos.) 
As espadas dos peixes aguerridos 
(os espadartes) trançam cintilações de prata 
em campo blau, como num escudo. 
O escudo de Netuno contra o casco do Indômitus. 
A arte de navegar entre espadas 
não é tão fácil, senão a mais oscilante das 
artes. 

Não consta da rosa-dos-ventos...
Se bem que uma rosa-dos-ventos é rosa 
mas apenas no nome. Antes, a chamaremos de mal-me-quer 
até Dunquerque. 

Indômitus está dançando agora entre duas espécies de 
estrêlas. 

A hora não é pra considerações em tôrno do 
que possa acontecer. 

É a hora do sangue-frio. Porque os peixes, 
como os capitães, são animais de sangue-frio. 

A hora é do vento 
pela proa, ou a maubordo (não bombordo). 
Nasce uma flor no mastro, um flama (não flâmula). 
Indômitus então navega em plena rosa cega. 

Uma fulguração súbita escreve no ar uma frase. 
Thamuz, Thamuz, panmegas tethneka. Fulmotondro. 
O comandante está dizendo à sua maruja que não há 
no dicionário uma palavra mas bonita do que arquipélago. 

Trinta pombos azuis em formação geométrica voltarão 
ao navio.

CASSIANO RICARDO

Pintura: Keith Hansen

março 10, 2016



Você Não Pode Iniciar Uma Jornada Espiritual  Sem Ter o Coração Partido.
You Can't Start The Spiritual Journey Until You Have A Broken Heart

Pegue uma beirada do passado
Take the edge of the past,
não o passado inteiro,
not the whole
só uma beiradinha,
just the edge,
o jeito que o professor de artes
the way the art teacher
disse: Você Pisca Demais
said You Blink Too Much,
o jeito que o professor de línguas disse
the way the English teacher said
Seu Pai Deve ter Escrito Isto—
Your Father Must Have Written This-
Está Bom Demais…
It's Too Good . . .
Mas acho que isso acontecia
This must be why
porque Deus começou a falar comigo
God started talking to me
na minha própria voz com
in my own voice with
pensamentos de
thoughts of
consequência e
consequence and
sugestões totalmente novas
ideas I never knew,
em minha própria voz
in my own voice,
mesmo que eu achasse
even though I thought
que algo melhor com certeza
a better one surely
poderia ser encontrado
should be found,
com certeza seria encontrado—
and certainly could be found-
Parecia que a princípio
It sounded at first
tal um sol ardente
like a fiery sun
e um luar de seda
and a silk moon
girasse dentro de mim
spinning through me,
em dialetos
in tongues
e linguagens
and languages
eu finalmente entendi
I finally understood
Mas logo—bem logo—
but fast- so fast-
no momento que fosse escrever
by the time I got the pen
tudo se dissiparia.
it was gone.

GRACE CAVALIERI

Tradução: Beto Palaio
Arte: Andrew Wyeth

março 06, 2016

Resultado de imagem para dead leaves Menashe Kadishman  jewish museum

Uma vontade não sei de que...

Saudade não sei de quem...

Um desassossego na alma...

Um desejo que nada quer...

Uma espécie de veneno doce,

Que faz morrer... sem matar!

Patrícia Oliveira


Arte: "Folhas mortas", escultura de Menashe Kadishman

fevereiro 23, 2016


Há uma hora certa, 
no meio da noite, uma hora morta, 
em que a água dorme. 

Todas as águas dormem: 
no rio, na lagoa, 
no açude, no brejão, nos olhos d'água, 
nos grotões fundos 
E quem ficar acordado, 
na barranca, a noite inteira, 
há de ouvir a cachoeira 
parar a queda e o choro, 
que a água foi dormir... 

Águas claras, barrentas, sonolentas, 
todas vão cochilar. 
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas, 
fios brancos, torrentes. 

O orvalho sonha 
nas placas da folhagem 
e adormece. 
Até a água fervida, 
nos copos de cabeceira dos agonizantes... 

Mas nem todas dormem, nessa hora 
de torpor líquido e inocente. 
Muitos hão de estar vigiando, 
e chorando, a noite toda, 
porque a água dos olhos 
nunca tem sono...

JOÃO GUIMARÃES ROSA

Pintura: John Singer Sargent