fevereiro 13, 2014


O MENINO DA PORTEIRA

Escorre por um fio o pio do uirapuru. O céu arrepiou de subir de novo. Foi como se disse. No que se disse. A mentira que se narrava nas esquinas e botecos. Além da lenda. Buchichos nas igrejas e nas casas de oficio fácil. O começo do mundo é que não era. Chovera muito. Semana inteira de neblina e chuvarada. Aqui a estória do fim se inicia. Pelo fim é que se morde o rabo da cobra. E não é que PP morreu mesmo? Pequerrucho Piemontês, este o nome do eterno prefeito de nossa cidade.

 - O PP sempre se esquecia do hoje agora. Se administrasse era para algo vindouro. Acolá sendo sua mira de tiro...

“Em dez anos o mundo será outro”, dizia Pequerrucho, “armas e corações estarão irmanados. O mundo se tornará algo frio e indiferente. Nem amor nem guerra comandarão as futuras pelejas humanas”. Enquanto isto nossa cidadezinha se espreguiçava como um lagarto ao sol. Nada fazia crer nas mudanças imaginadas por PP. Lembro-me perfeitamente disto. Houve um dia que trabalhei ao lado do prefeito Pequerrucho Piemontês. Lado a lado. Limpando uma bagunça que com o tempo foi acumulada no alto do campanário da única igreja de nossa cidade.

- Menino, pegue esse rolo de tapetes podres e jogue pela janela...

Eventualmente ele me tinha sob controle, podia ouvir seus comandos, respiração entrecortada, vassourão na mão, olhos esbugalhados pelo esforço de carregar tralhas. Não demorou muito tempo para limparmos aquela bagunça. Eu, jovem ainda, estava com o corpo moído pelo esforço da faxina. PP no entanto parecia cada vez mais disposto, principalmente nos últimos arremates da limpeza.

- Agora me ajuda a carregar algumas coisas da prefeitura para cá... Vou transformar isso aqui no meu escritório privativo...

De fato o campanário da igreja logo ganhou luzes noturnas, pois PP vinha para lá após o turno diário dos seus deveres como prefeito de nossa cidade. Foi assim que ele começou a ganhar fama de bruxo.

- O PP está doidinho... Quem é que vai lá para descobrir as bruxarias dele?

Um convescote de pessoas despeitadas chegou até a porta de minha casa pedindo providencia. Afinal eu era o ajudante de ordens do prefeito e deveria saber se a cidade corria perigo tendo um dirigente assim profanador das ordens espirituais reinantes. De fato a incumbência dos injuriados chegou à raia dos fatos:

- Ou você vai secretamente ver o que está ocorrendo, ou nós iremos de tocha em punho colocar fogo no campanário!

Achei por bem ir até o campanário e ver o que estava acontecendo no cubículo onde se escondia diariamente o prefeito. Já nas escadarias de acesso à cúpula eu podia sentir o forte cheiro de vela derretida com enxofre. Uma luz bruxuleante saía das frinchas da porta de acesso ao escritório de PP. E ele, misteriosamente, adivinhou minha chegada:

- Moleque, chegou em boa hora. Pode entrar. Vai me ajudar numas coisinhas.

Quando entrei tomei um susto. Havia dois PPs na saleta. Esfreguei os olhos achando que era defeito de minha visão. Mas era verdade. Os dois prefeitos estavam olhando para mim com o mesmo ar de incredulidade que eu demonstrava. Então a dupla se dirigiu a mim com a incumbência:

- Vá até a porteira da fazenda do Neco e espere lá até o amanhecer... Leve esse pacote que um amigo nosso vai retirar com você... Não se assuste... Aceite isto como uma responsabilidade municipal...

Si-si-si-si-si. As cigarras estavam ruidosas no amanhecer daquele dia de verão de 1967. Acordei ao lado da porteira. Não tinha mais o pacote que “os prefeitos” me confiaram. Aliás, nem lembrava, naquele momento, de que vira dois PPs no reduto do campanário. Foi com espanto que despertei ouvindo as cigarras. Depois bati com as mãos na minha calça jeans e agitei minha camisa para retirar o excesso de poeira que se acumulara por eu ter dormido no chão de terra. Logo rumei de volta para a cidade, mas sem pressa nenhuma...


Beto Palaio



Conto do livro TRAÇOS DE POLARÓIDE, somente composto de "estórinhas estranhas" que escrevo no momento.

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